O AMOR É MAIOR DO QUE A MORTE
sobre ancestralidade e caderninhos de adolescente
É uma tarde fria e cinzenta de domingo, e estou visitando a casa de uma amiga querida. Em meio a xícaras de café e fatias de bolo, Bárbara me mostra uma pesada sacola de papel, repleta com meus antigos caderninhos de desenho&poesia. Eu tinha uma vaga lembrança do que continham aqueles cadernos, embora não lembrasse quando foi exatamente que os perdi naquela casa.
“Ai, tenho certeza que vou chorar”
Digo, já decretando que não poderia fazer outra coisa naquele momento senão abrir cada caderno e folhear, uma a uma, todas as lembranças de uma Melissa de 15 anos atrás. Eu tinha, mesmo que sutil, uma certa intuição sobre o que poderia encontrar ali, então respirei fundo.
Eu já estive por aqui antes falando sobre minha história com a Morte e seus mistérios. Confesso que até me considero repetitiva nesse assunto, quase como se não soubesse falar de outra coisa. Amor e Morte. Sem dúvida os dois temas que mais fazem morada nos meus versos.
E por falar em amor, um pequeno pedaço de papel dobrado caiu ao abrir o primeiro caderninho. Nesse papel, escrito com letras arredondas e aquáticas, uma mensagem de amor do meu primeiro namorado. Flip, como todos conheciam, encontrou La Huesuda com seus 18 anos. Hoje me permiti desaguar esse luto uma vez mais.
Flip é um Morto Querido que por muitos anos fui resistente a saudar nas minhas práticas necromantes. Foi um amigo, confidente e amante. Foi o canal e a maneira que a Morte escolheu de soprar seus mistérios pra Melissa de 14 anos. Quem é lembrado, vive.
Uma série de fotos estilo 3x4 com tons de sépia e já surradas pelo tempo
Tio Tony foi outro morto que apareceu em meio as páginas dos caderninhos.
Irmão da minha avó paterna, morreu com seus 30 anos - mocinho de tudo, como dizia Dona Maria. Não pude conhecer tio Tony em vida, mas sem dúvidas é um dos ancestrais de sangue mais presente nos meus ritos. Operário em uma fábrica do ABC Paulista, trabalhador mas também boêmio, espirituoso, bem humorado, esquisitão. Esse foi Tony, e são esses os mistérios que ele me ensina. Quem é lembrado, vive.
Todo tipo de cultura e histórias da região do Sudeste Europeu, em especial a Eurásia, sempre me despertou muito interesse. Hoje entendo tamanha familiaridade.
Sérvia. Romênia. Grécia. Polônia.
Itália. Grécia. Estônia.
Mandê. Magrebe. Amazônia.
Brasil.
Avenia. Rueda. Bella. Alves. Streciuk.
Minha ancestralidade tem muitos nomes e sotaques. Carrego em mim muitas linhagens e gosto muito de me vestir com todas. Suas práticas, suas crenças e deuses, seus costumes e manias, suas aptidões e dons, mas também suas limitações.
Suas histórias.
Foram muitos que pisaram nessa terra antes de mim, encorpando o mesmo sangue por gerações. Através de mim vivem muitos e também através deles sigo caminhando aqui.
Em memória dos que já se foram, e aos que ainda irão.
Ancestrais e Descendentes.
À quem acendeu a vela, e para quem vai mantê-la acessa.
Quem é lembrado, vive.
Com amor e nostalgia,
Aracne.




